domingo, 8 de novembro de 2015

BOAS NOVAS!



Foto: Divulgação
Da periferia de SP para o mundo: Emicida, o maior nome do rap nacional, lança novo álbum e conversa com o Blog Sucesso® sobre racismo, direitos sociais, fama e, claro, a boa música. Emicida faz o que poucos conseguem: apresenta-se em todo o país e nos maiores festivais do mundo, realiza parcerias com artistas como Pitty e MC Guimê, emplaca trilhas sonoras em novelas da TV Globo, tem impressionantes números em suas mídias sociais – cerca de 53 milhões de visualizações no You Tube e quase 4 milhões de seguidores no Facebook - , comanda sua própria produtora e marca de roupas – a Laboratório Fantasma – e ainda mantem um e-commerce de moda de sucesso. Ao mesmo tempo, ele é mais preocupado em usar sua influência para falar de assuntos importantes tais como o racismo - ainda persistente no Brasil - do que em posar como poderoso. Tudo mudou na vida de Leandro Roque de Oliveira - nome real do rapper que nasceu em um bairro de baixa renda na Zona Norte de SP - mas ao mesmo tempo, nada mudou: seus amigos são os mesmos da época das batalhas de MCs. Aos trinta anos de idade, acaba de lançar “Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa” – o segundo álbum de sua carreira. Parte das gravações foi feita na África, onde passou o começo do ano percorrendo dois países – Angola e Cabo Verde - que o influenciaram tanto na produção quanto em sua visão de mundo. Antes mesmo do álbum físico chegar às lojas, o vídeo do rap ‘Boa Esperança’ já virou sucesso absoluto na internet, com a atuação da própria mãe do cantor.  Confira agora este bate-papo descontraído, feito exclusivamente para você...


SL: Emicida, como você lida com a fama?
EM: O pensamento de favelado é difícil. A gente vive muita tristeza e exclusão. Você se sente feio a vida inteira e, de repente, cria outra coisa e as pessoas te acham bonito. Lidar com isso é um questionamento eterno, às vezes, meio "deprê", mas me mantém com os pés no chão. É louca a minha vida. Uma hora estou no palco, com cinco mil pessoas gritando meu nome. Quinze minutos depois, estou sozinho. Mexe com a cabeça. Por isso, vários ‘manos’ se afundam nas drogas. A vida não é uma festa para quem faz rap. A gente vive uma preocupação constante. Você vai tocar em um lugar bom, aí o ingresso é mais caro e, quando você olha, toda a plateia é de gente branca. Quando vira para trás, vê o cara da segurança, a moça da limpeza, os manobristas. É ali que os negros estão.

SL: Sua mãe tem um espaço importante em sua formação. O que você acha do feminismo?
EM: A escritora nigeriana Chimamanda Adichie fala que todas as pessoas devem ser feministas. E eu acredito nisso. Cresci em uma família de mulheres. Para mim, a palavra ‘mulherzinha’ nunca foi ofensiva porque eu não convivia com nenhum homem adulto na minha vida. A maioria deles já tinha morrido. E, quando ainda eram vivos, eles batiam nas mulheres e bebiam, ou seja, eu não tinha nenhum bom exemplo. Minha mãe não se encaixava no feminismo. E, ao mesmo tempo, ela foi feminismo puro, uma mulher digna lutando por ela e pelos filhos.

SL: Como você vê a imposição de um padrão de beleza único às mulheres?
EM: Acho que não existe padrão de beleza. A mulher tem que ser livre. A África me mostrou essa desconstrução. Quando cheguei a Cabo Verde, fui recebido por um grupo de mulheres dançando – vem daí o “quadris” do nome do disco – e me falaram que aquele tipo de dança tinha sido proibido. Portugal considerava uma coisa subversiva ver as ‘minas’ rebolando. E, em nossa cultura, a gente sempre foi apresentado ao rebolado pela perspectiva do homem, pelo viés sexista, onde a mulher deve sempre servir como objeto de desejo sexual. Naquele momento, pensei: quem colocou o demônio no corpo das mulheres? O escritor angolano José Eduardo Agualusa fala sobre isso, afirmando que quem levou o Diabo para a África foi o europeu, já que o Diabo não existia na cultura africana. Aquela dança para elas era algo sagrado, assim como os seus corpos.

SL: Quais os outros aspectos interessantes que você aprendeu na África?
EM: Sempre tive a perspectiva do europeu e foi bom conseguir entender a visão dos africanos. Por exemplo: mesmo o Brasil sendo o país mais negro do mundo fora da África, a gente estuda a escravidão aqui, do começo ao fim. Mas nunca estudamos como era a vida dos negros antes dos navios negreiros, as pessoas sendo arrancadas da sua família e de sua casa, a população sendo levada embora do país... Enfim, eu me lembro de entrar no Louvre e pensar que muito daquilo havia sido roubado da África.

SL: O público que não é da periferia entende as suas músicas, a filosofia que elas representam?
EM: Sentir é o mais importante. A música conversa com a alma e a letra conversa com o cérebro. Toco em um bairro de playboy, mas em lugares onde o pessoal da nossa comunidade consegue chegar. Infelizmente, o circuito cultural da nossa cidade e do nosso país é centralizado.

SL: Como você lida com o racismo, em especial, com as mídias sociais, que permitem a interação entre você e o público?
EM: Outro dia, postei algo e um menino comentou que era branco e perguntou se podia ouvir meu som. Tenho certeza que o garoto é mais inteligente do que isso... Uso as mídias sociais como uma maneira de me manifestar e me informar. Durante um período, me posicionei sobre tudo. Hoje, faço pouco isso. Tenho me mantido afastado. Aquilo acaba com a minha criatividade. Quando você fica preocupado com as curtidas e os comentários, começa a trabalhar a arte da publicidade e a vida como uma campanha. Quero ser visto como uma pessoa humana, com o direito de errar. Mas, em tempos de um milhão de curtidas, esperam a perfeição e isso é uma doença. A gente precisa aprender a lidar melhor com isso.

SL: Onde você se informa?
EM: Eu leio. Li muitas obras de autores africanos nesse último ano. Também uso bastante o Twitter. Gosto de acompanhar discursos diferentes do meu. Quem enxerga somente um lado do mundo, só vê um lado da verdade. Eu já achei que tinha que brigar, lutar pelas coisas... Hoje acredito no poder do diálogo. Estou bem mais calmo agora.

SL: Gosta de ler jornal?
EM: Não. Só compro para minha mãe quando eu saio nas reportagens (risos). Além de livros, leio quadrinhos como o Hell Boy, para não ficar só no ‘papo cabeça’ (risos).

SL: Você se formou em design. Ainda desenha?
EM: Voltei a desenhar quando fizemos a coleção de roupas e tênis para a West Coast, lançada em junho deste ano.
  
SL: E você gosta de moda?
EM: Para c*** (risos). Pharrell, Puff Daddy, Jay Z, todos têm uma ligação com a moda. Vejo como uma transição natural, uma extensão do meu trabalho. Gosto de acompanhar todo o processo, do desenvolvimento da peça à estampa. Estou aproveitando a inspiração da África para criar.

SL: E como encontrá-lo nas redes sociais?
EM: A rua é “nóis” (risos), meu Twitter é @emicida, Instagram @_emicidaoficial e Canal You Tube. É só colar!

SL: Para finalizar, não poderia deixar de mencionar este sucesso estrondoso de todos os seus projetos. Mas o que ainda está prestes a ser conquistado?
EM: Quero tocar no festival Glastonbury. A gente vai ficar muito marrudo se tocar lá... (risos) A verdade é que já vivo o sonho de muita gente, inclusive o meu. Estou satisfeito em poder chegar aqui com os meus amigos, com minha família e fazendo o que eu gosto. Estou vivendo meu sonho. 




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