domingo, 1 de abril de 2018

PALMAS & REVERÊNCIAS




Das sombras às cores!

Confira, com exclusividade, a entrevista realizada com o tatuador Moreno Simões, o profissional que vem desenvolvendo um trabalho bem interessante, prático e de formação de novos profissionais, com o estilo de tatuagem New School. Para os amantes da ‘arte na pele’, ou para quem ainda está se decidindo apaixonar pela ideia...

SL: Moreno, você começou a tatuar com 15 anos. Houve tempo de se dedicar à outra profissão além de tatuador?  
MS: Antes de ser tatuador, eu era apenas amante de desenhos e praticava bastante, mas apenas como diversão. Nunca quis ser outra coisa depois que entrei para essa área de tatuagem.
SL: O que você acha da lei estadual de n.º 9.828 - de autoria do deputado estadual Campos Machado (PTB) - que proíbe que se faça tatuagem ou piercing em menores de idade desde 1997?
MS: Acho a lei cabível, pois antes de completar a maior idade, nós mudamos muitas vezes de opinião. Acho que uma boa idade para começar a se tatuar é com 18 anos, as ideias estão mais convictas na cabeça.
SL: Você considera obrigatório o conhecimento em técnicas de desenho para se tornar um bom tatuador?
MS: Acho indispensável, na vida de um tatuador, alguns conhecimentos sobre desenho. Quando se estuda uma obra no papel, se pré-estabelece segurança e conhecimento no momento de realizar o trabalho na pele.
SL: Qual a sua opinião sobre as convenções de tatuagem?
MS: Acho muito positivas, quando feitas com critérios justos de avaliação, para que assim não exista um favorecimento a artistas já renomados e que novos talentos possam ser descobertos e prestigiados com o simbolismo de um prêmio.  Sou prova viva da importância de uma convenção na vida de um tatuador. Foi por intermédio delas que venho aprendendo muito todos os dias e tive o reconhecimento que hoje me possibilita ter o prazer de participar dessa entrevista. Além de outras portas que se abrem também.
SL: Para você, toda tatuagem é vista como peça de arte e todo tatuador é um artista?
MS: Sim, com certeza. A tattoo é a maior expressão que conheço de arte na atualidade, onde sua obra é exposta nos mais diversos públicos e tem as mais diversas opiniões sobre seu trabalho. Encaro, sim, todo tatuador como um artista quando se tem uma entrega grande ao que se propõe fazer. Fato que hoje existem artistas e, também, tatueiros (risos).
SL: Você inicialmente era bastante focado no trabalho black and grey e influenciado pelo trabalho de Bob Tyrrell, Robert Hernandes e Paul Booth. Conte-nos um pouco sobre essa sua fase. Como foi essa influência na sua vida?
MS: Nessa fase da carreira eu era fortemente influenciado pelas capas dos discos de Death Thrash Metal das décadas de 80 e 90. Levei isso comigo durante dez anos de carreira, até descobrir com o New School que, na verdade, meus trabalhos de sombra eram apenas decorados com sombras, mas elas não eram colocadas onde deveriam estar. O contato com o New School me trouxe total visão do que se trata de iluminação em uma obra, trazendo hoje para o meu trabalho também o preto e o branco, a sensação de relevos e profundidades reais, mas não como nas antigas obras, onde decorava o trabalho com o preto sem critério algum. Hoje entendo que eu não tive destaque com esse estilo antes por falta de conhecimento e de estudos do mesmo.
SL: Em 2010, você passa a investir no estilo New School... Como foi essa transição? Quais foram as suas principais dificuldades na época?
MS: Acho que a principal dificuldade foi a não aceitação dos demais artistas do New em ter outro sujeito se desenvolvendo em tal estilo. Aí pintaram as críticas, os desafios e as chacotas que só me motivaram a buscar, cada vez mais, renovar o estilo para que assim eu deixasse a minha marca nesse tão amplo cenário da arte. Meu estilo, no final das contas, acabou se tornando uma referência nacional de New School após conseguir, por três anos consecutivos, aproximadamente 30 prêmios nessa categoria, tornando os critérios avaliados em eventos baseados no meu estilo de trabalho e, assim, conquistando  o tão sonhado reconhecimento artístico. Hoje, tudo o que eu faço leva elementos do New School, dando um toque especial até mesmo nos trabalhos comerciais ou de outras culturas. O New School entrou na veia e não sai, acrescenta demais para todos os estilos de tatuagem.
SL: E quais os artistas que já registraram sua pele?
MS: Na minha pele coleciono trabalhos do mestre Mauro Nunes, Chambinho (Tattoo Maniax), Nareba, Renata Gianoni, Nonho Tattoo, Pena, Diego Nunes e também do meu amigo e companheiro de estudos Monkey Tattoo, artista que revolucionou o cenário da tattoo com técnicas para lá de avançadas.
SL: Qual a parte mais prazerosa da sua profissão?
MS: Primeiramente, a entrega da pele de um ser humano em suas mãos para a realização de um procedimento tão cauteloso e de grande responsabilidade. Depois disso, a satisfação de estar trabalhando com algo que eu faço a vida toda com muito prazer, que é desenhar e poder provar para as demais culturas pouco evoluídas e preconceituosas o quanto se pode fazer isso bem. E com higiene, sem riscos à saúde. E, também, viver dessa arte desacreditada por tantos... Tenho imenso prazer em acordar todos os dias e saber que sou um tatuador.
SL: E quais são as principais características que um bom tatuador deve ter?
MS: Em minha opinião, inclinações para arte desde sempre e interesse em buscar conhecimento de forma constante. Resumindo, em poucas palavras, é preciso estudar arte sem limite e sem esquecer que já que se trata de arte na pele não basta só estudar papel, lápis de cor, tipos de tinta e pincéis... Não se deve esquecer que o nosso “papel” é a pele das pessoas. Por isso, é preciso estudar a constituição celular, o sentido correto de aplicação de tinta e outros milhões de fatores que se somam para um resultado excelente de tatuagem.
SL: Qual a sua visão sobre o cenário da tatuagem no Brasil?
MS: Um cenário que só cresce ano a ano. A prova disso é o destaque dos nossos artistas em outros países. Isso sem falar que os nossos trabalhos não perdem em nada para os gringos, apesar da superioridade que eles tem lá fora. Mas, mesmo assim, ainda conseguimos driblar as dificuldades e executar trabalhos tão bons ou até melhores que os artistas internacionais - que possuem material de primeira linha e apoio cultural do governo. Hoje em dia você vê muita gente interessada no assunto, de todas as classes sociais, de diferentes culturas, idades, sem contar que a tatuagem hoje também faz seu trabalho social com pessoas que sofrem de câncer e desejam reconstruir alguma parte do corpo com arte. A gente sempre espera que o preconceito diminua mais a cada dia. A tatuagem, que antes era mal vista e classificada equivocadamente como coisa de bandido, agora se tornou acessível a todos.
SL: Quais estúdios você já trabalhou em SP?
MS: A grande maioria do tempo de profissão, eu trabalhei em minhas próprias lojas, mas passei por alguns estúdios onde só vou citar quem merece (risos), como a Baca Tattoo Studio, Tattoo Art Show, Skin Tattoo, Tribo do Piercing, entre outros.
SL: Para saber outras informações sobre os seus projetos e portfólios, como entrar em contato?
MS: Agendamentos pelo telefone (11) 2737.4988. Ou na página do Facebook  https://www.facebook.com/MorenoSimoes. Disponham.
SL: E como você gostaria de encerrar esta entrevista?
MS: Deixando um recado para todos os tatuadores do Brasil...  Prepare sua base artística buscando conhecimentos de desenho, artes em geral e conhecimentos sobre pele, pigmentos, equipamentos e todos os assuntos relacionados ao tema. Hoje em dia tem muita novidade chegando no mercado, tatuagens 3D, técnicas novas de remoção a laser, entre outras. Tenham zelo pelos seus clientes, tem cada tatuagem mal feita que a gente vê por aí que revolta e mancha toda uma classe de tatuadores sérios e dedicados. Ainda bem que esses ‘ditos profissionais’ ainda são minoria, mas o consumidor também tem que fazer a sua parte e só procurar tatuadores que utilizem materiais descartáveis e com boas referências no mercado. E não fazer nada por impulso, não se esqueça de que a remoção é mais dolorida do que a aplicação... Então repense o desenho, o local do corpo que deseja fazer, essas coisas. Saiba usar a tatuagem como forma de expressão e seja feliz.






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