Do mangue ao pop: A fusão cultural
proposta por Chico Science mudou a música brasileira ao misturar o tradicional
maracatu pernambucano com black music, rock e funk
Manguetown,
Antene-se, Um Satélite na Cabeça... Estes são alguns títulos de canções, mas
podem ser considerados como curtos manifestos deixados por Chico Science em pouco mais
de cinco anos de carreira e dois discos lançados com a banda Nação Zumbi: Da
Lama ao Caos (1994) e Afrociberdelia (1996).
O
grupo começou a se apresentar no Recife em 1991, em uma onda crescente que
deixou Pernambuco pequeno. Em 1993, passaram por São Paulo e Belo Horizonte, em
shows que renderam a assinatura do contrato com o selo Chaos, criado pela Sony
Music para divulgar novas bandas - as apostas da música brasileira.
Antes
de se destacar da maré de músicos e bandas surgidas nos anos 1990, Chico
Science – cujo nome era Francisco de Assis França – teve uma infância tranquila
no bairro de Rio Doce, em Olinda. Nasceu em 1966 e, quando criança, vestia seu
chapéu de palha e seguia em direção ao mangue para pegar caranguejos que seriam
vendidos na feira. O mangue não lhe rendeu só uns trocados, mas ampliou sua
visão do mundo. O ecossistema característico da região virou metáfora, ritmo e
se concretizou em uma cena musical que inovou e questionou a música brasileira
e a realidade social do Recife.
O Manguebeat
– ou batida do mangue – virou movimento. Chico Science se interessava por
black music e funk americano, sons que rolavam nos bailes que frequentava na
adolescência, mas também foi embalado pelo som do tradicional maracatu,
futuramente acoplado em suas composições. Além das notas vibrantes de contrabaixo e dos solos de guitarra provenientes do rock.
Uma
música sempre presente nos shows de Chico e Nação Zumbi era Maracatu Atômico,
composição de Nelson Jacobina e Jorge Mautner, que rendeu um dos clipes
sínteses da banda e deu nova roupagem à cultura tradicional. As imagens se
revezavam. A banda toda aparecia vestida de lama, depois com os trajes pesados
do maracatu, até ser mostrada no palco vestindo jeans, bermuda ou camiseta,
misturando os tambores da percussão à guitarra elétrica de Lúcio Maia.
A
morte prematura de Chico Science no auge da popularidade em um acidente de
carro - dias antes do Carnaval de 1997 - deixou marcas. Foi uma perda
significativa tanto para os amigos e familiares quanto para a cultura
brasileira. Além da música, Chico Science era um pensador que agregava imagem e
som para quem só quisesse dançar ou dava munição para quem entendia a música
como uma forma de expressão.
Uma
das maneiras de rever o impacto de Chico Science e do Manguebeat será a série -
ainda em produção - Lama dos Dias, do
cineasta Hilton Lacerda, sobre a cena de Recife nos anos 1990, o que evidencia
que há muito para se estudar sobre esse período. A conexão entre o regional e o
globalizado, em uma época em que tal relação ainda não era tão evidente, dá ainda mais méritos ao artista. Canal de divulgação para
as bandas da época, a MTV brasileira potencializou o trabalho de Chico Science
e outros memoráveis desta geração. "Bora" conferir um de seus principais hits?

chico science foi o maior poeta do nosso pais
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