domingo, 23 de junho de 2013

MKT LAB

COM JOYCE RIBEIRO

À primeira vista, Marketing e Jornalismo possuem conceitos significativamente opostos. Enquanto o primeiro almeja a venda e a notoriedade de um produto ou serviço, o segundo traz a forma clara, isenta e verdadeira de informação. Entretanto, a prática jornalística sutilmente começa a se render às ferramentas do Marketing para se adaptar aos seus clientes e sobreviver no mercado competitivo atual. E soma-se, nos dias de hoje, o fato de que a notícia pode estar permeada de intenções mercadológicas. Afinal o texto jornalístico, dito imparcial, em alguns casos também pode se inserir no contexto do Marketing de Idéias, onde o posicionamento perante questões cotidianas passa a ser essencial para conquistar credibilidade no mercado, consolidar a fidelidade de seus leitores e/ou telespectadores e, consequentemente, manter ou aumentar as vendas da organização.

Foto: Divulgação
A conceituada jornalista Joyce Ribeiro conta, em entrevista exclusiva, quais os principais desafios da carreira e de que maneira os Veículos de Comunicação exercem influência como verdadeiros formadores de opinião na sociedade.

SL: Joyce, quando se originou a vontade de ser jornalista?
JR: Desde a minha adolescência. No começo, fiquei em dúvida entre cursar Jornalismo ou Direito, porque o Jornalismo sempre foi a minha grande paixão, mas seria difícil entrar na área posteriormente. Se eu estudasse Direito, na minha concepção, teria uma profissão mais segura e mais definida na época. Mas depois eu decidi arriscar tudo e fazer aquilo que eu realmente queria. Atualmente, o mercado de trabalho é competitivo em todos os segmentos. Então, é melhor investir naquilo que você mais gosta, porque fica mais fácil e prazeroso alcançar o sucesso profissional.

SL: Como foi o início da sua carreira?
JR: Estudei na FIAM e na PUC, com pós-graduação em Jornalismo Econômico, além de realizar cursos especializados no SENAC. Meu primeiro emprego foi na Rede Mundial de Televisão da LBV, a realização de um sonho. No início, trabalhava na pauta e a ajudava na produção. Aos poucos, comecei a fazer reportagens sobre variedade e cultura, duas vertentes que eu adoro. Fazia cobertura de festas, shows, peças de teatro, enfim, mostrava todas as badalações noturnas da cidade. Revista Cultural foi o primeiro programa que eu apresentei. Também me tornei Assessora de Imprensa Musical durante um ano, mas em meados de 2003, minha paixão falou mais alto e acabei voltando para a televisão. Desta vez, para a RITTV, apresentando um telejornal convencional chamado Toda Hora. Mais tarde, apresentei o Fala Brasil na Rede Record e, posteriormente, fui para a Record Internacional, que tinha uma programação transmitida apenas para afiliadas no exterior. Adquiri muita experiência profissional apresentando o primeiro jornal Record News, que futuramente acabou se transformando no nome de toda a emissora. Pensando em retornar aos canais abertos, comecei a trabalhar aqui no SBT apresentando o jornal SBT Manhã e as substituições da Ana Paula Padrão. E até o momento, permaneço nesta casa que é muito apreciada por mim e por todos.

SL: Você vivenciou algum tipo de preconceito ou frustração ideológica no Jornalismo?
JR: Na verdade, frustração ideológica eu não tive, porque quando eu deixei a faculdade já trabalhava na área jornalística. Tudo aconteceu naturalmente para mim, embora reconheça a frustração de vários colegas meus. Mesmo que esse olhar crítico e radical seja implantado na mentalidade dos universitários, sempre acreditei que o que é bom deve ser preservado, ou seja, nem tudo precisa ser mudado. Com relação ao preconceito racial, sempre tive uma visão otimista que, infelizmente, com o passar dos anos se tornou mais realista. De forma explícita, posso afirmar que não sofri preconceito na área profissional, talvez até por uma questão de medo das conseqüências que os atos poderiam acarretar. Entretanto, a gente percebe que a discriminação ainda está presente no âmbito mundial. Mas o negro não deve se diminuir com estas manifestações negativas, pois ele deve lutar pelos seus direitos e sempre se lembrar das pessoas importantes que marcaram presença ao longo da nossa história.

SL: Como foi a experiência de apresentar a segunda edição do Aqui Agora, considerado um dos jornais mais polêmicos da televisão brasileira?
JR: Apesar da segunda edição do Aqui Agora ter sido exibida por pouco tempo, o jornal teve uma repercussão muito favorável. De uma maneira geral, o jornal policial desperta o interesse do público, porque ele mostra a verdade sem poupar o forte impacto ao telespectador, além de ser considerado um porta-voz da população, buscando soluções para os problemas da periferia. Mas ele tem que ser produzido com muito zelo e responsabilidade, pois sou absolutamente contra a exibição de pessoas mortas durante um tiroteio, por exemplo. No entanto, retratar a realidade é a função do jornalismo e, por isso, o jornal policial precisa ser explorado de maneira coerente, para instruir e conscientizar a todos de uma forma bem positiva.

SL: Joyce, o que é mais gratificante para o jornalista?
JR: Sem dúvida, o aspecto mais gratificante é a prestação de serviço à população, onde as informações úteis a serem transmitidas possam oferecer praticidade ao telespectador, leitor ou ouvinte, que precisa se situar no mundo em que ele vive.

SL: E você acredita que, em alguns casos, a função de jornalista é almejada por estar relacionada a uma suposta imagem de “status”?
JR: Infelizmente acho que sim, porque a televisão tem este poder de iludir as pessoas. Trabalhar na televisão é, de fato, muito gratificante. Mas não ao jovem que deseja apenas ser famoso e ganhar muito dinheiro. Com os sacrifícios, as dificuldades e as cobranças do ramo no dia-a-dia, este glamour fica completamente esquecido (risos). Trabalhamos a qualquer hora, sacrificamos a companhia dos amigos e familiares, enfrentamos desafios e, muitas vezes, comprometemos até a nossa própria segurança física, com o intuito de divulgar a informação verdadeira com agilidade e muito profissionalismo.

SL: Em sua opinião, quais as qualidades fundamentais para se tornar um bom jornalista?
JR: Uma característica primordial é manter-se bem informado, além de conseguir selecionar as informações mais relevantes. Um bom jornalista é um constante pesquisador, ou seja, ele deve gostar de estudar, ler, ajudar às pessoas, prestar serviço e ser útil ao próximo.

SL: Quais as principais dificuldades encontradas na profissão?
JR: Discernir as informações mais importantes ao público-alvo em referência. Afinal, tudo é notícia, tudo o que acontece no mundo é um fato. O desafio é perceber o que é necessário ser divulgado. Para isso, é fundamental conhecer o receptor da mensagem, que na minha humilde opinião, somente os anos e a dedicação podem oferecer essa capacidade ao jornalista.

SL: Você já vivenciou alguma situação embaraçosa durante alguma entrevista ou matéria de grande repercussão nacional?
JR: Sim, eu já troquei o nome de um entrevistado (risos). Logo na minha primeira entrevista, misturei o nome dos atores de uma peça teatral, trocando o nome de um com o sobrenome do outro. O pior é que eu só fui perceber meu erro quando notei que eles começaram a rir muito daquela situação. Aparentemente eu levei na esportiva, mas na verdade, eu fiquei muito sem graça. Isso me marcou muito, porque basta lembrar deste acontecimento e eu fico novamente morrendo de vergonha! (risos).
  
SL: Especificamente para a área do Telejornalismo, a questão da beleza física é analisada?
JR: Em um primeiro momento, se a jornalista que estiver transmitindo a mensagem ficar bem no vídeo, acho que pode trazer certo benefício, afinal televisão é imagem. Mas isso não basta, porque no decorrer do tempo aquilo deixará de ser novidade e o que irá surpreender e impressionar será o fator da competência, além de outras qualidades profissionais que ela possa evidenciar ao público.

SL: Quem são os profissionais que você mais admira no ramo?
JR: Eu admiro o trabalho de várias jornalistas consagradas como a Fátima Bernardes, Ana Paula Padrão, Glória Maria, Zileide Silva e, inclusive, a Rosana Jatobá, que encontrou uma forma muito legal de realizar a previsão do tempo. Todas elas são fantásticas!

SL: Assim como observamos a crescente disponibilização de promoções e brindes na compra de jornais impressos e revistas nas bancas, quais são os tipos de marketing mais utilizados nos telejornais? Como o marketing se confronta com a ética jornalística?
JR: Bem, no caso do telejornal, o único espaço destinado ao marketing, aos anunciantes e às vendas se restringe ao espaço comercial, destinado inteiramente à publicidade. Isso quer dizer que a publicidade não pode exercer influência na linha editorial, pois ela deve respeitar os seus limites. Obviamente, o espaço para a geração de negócios precisa existir, porque o jornal necessita de recursos financeiros para se manter no veículo de comunicação. E nesse mesmo contexto, cada veículo tem a sua própria ideologia, os seus parceiros e a sua história. O erro é permitir que algum fator possa ser determinante na linha editorial, coordenada pela direção de jornalismo. Não podemos nos esquecer que a função básica do jornalismo é fundamentada no comprometimento com a verdade. Por essa razão, jornais sérios retratam a realidade como ela é, sem favoritismos e/ou interesses comerciais.

SL: “Ombudsman”, na tradução jornalística significa ouvidor, profissional que analisa sugestões e cobranças sobre a correção de erros, falhas, imprecisões, equívocos e direitos de resposta, uma espécie de “advogado” do leitor. Podemos considerar essa prestação de serviço como uma ferramenta do marketing de relacionamento?
JR: Com certeza, é uma ferramenta do marketing de relacionamento muito válida para a instituição. Porque o cliente-leitor se sente reconhecido e prestigiado ao perceber que suas opiniões são importantes.

SL: Os jornais impressos conseguem atingir um público-alvo tão diversificado quanto aos telejornais? O tipo de linguagem é diferente?
JR: Acredito que, de um modo geral, as pessoas têm comprado menos jornal atualmente. Elas preferem o telejornal, porque é mais rápido, dinâmico, prático, direto e objetivo. E além disso, a linguagem costuma ser mais acessível a todas as classes sociais.

SL: Você acha que o texto informativo, apesar da objetividade, pode apresentar alguma mensagem subliminar?
JR: A regra correta é que não tenha nenhuma mensagem subliminar. Em minha opinião, o trabalho do jornalista deve ser o mais claro possível.

SL: Apesar da constante busca pela verdade, a liberdade de expressão ainda encontra barreiras para superar a censura da imprensa nos dias de hoje?
JR: Infelizmente, a censura ainda pode ocorrer em alguns casos. Não se pode negar que cada veículo possui uma tendência ideológica. Mas a função do jornalista é tentar agir o mais livre possível. Ou seja, o nosso dever é trabalhar em algum veículo de comunicação que não utilize limitações que possam agredir a profissão ou o público. É errado aceitar o protecionismo, escondendo informações.

SL: Nesse mesmo contexto, você acha que todas as notícias divulgadas estão em prol da sociedade? Existe certa manipulação das informações para favorecer determinados interesses políticos e/ou de empresas privadas?
JR: Em determinados casos, lamentavelmente, alguns veículos fazem certa manipulação de informações para favorecer a troca de interesses. Isso é um problema gravíssimo, porque acaba prejudicando a imagem de outros veículos de comunicação mais sérios. É por essa razão que o receptor não pode aceitar tudo o que for divulgado na mídia, sem reflexão. Confirmar informações e discernir críticas é uma forma de defesa que ele tem.

SL: Você denunciaria alguma irregularidade ocorrida em algum veículo de comunicação?
JR: Sim, sem sentir medo ou receio. Desde que seja algo que possa confrontar a ética profissional ou prejudicar alguém. Nosso trabalho, de uma maneira geral, não é muito fácil. Temos que defender aquilo que é certo, mesmo que às vezes este posicionamento possa nos trazer problemas e/ou conseqüências.

SL: Como ocorre a busca por algum fator diferencial na produção dos telejornais? Como se procede a concorrência em relação aos “furos de reportagem”, ou seja, às notícias divulgadas em primeira mão?
JR: Uma boa infra-estrutura pode determinar o bom desempenho diante da concorrência. Mas isso não é tudo. Uma boa equipe de produção, equipamentos, tecnologia, recursos e profissionais espalhados em locais estratégicos da cidade são aspectos favoráveis. No entanto, a apuração dos fatos precisa ser minuciosamente analisada e o jornalista precisa estar preparado e ficar atento para não depender exclusivamente destes artifícios. Afinal, ele não pode se precipitar, transmitindo informações erradas. Em determinados casos, é melhor se desprender do pioneirismo e manter a credibilidade.

SL: Atualmente, a maioria dos telejornais adquire um mesmo formato padrão, independente das emissoras a que pertencem. Em sua opinião, este formato poderá sofrer mudanças de acordo com as novas tendências de mercado?
JR: Sim, com certeza. Assim como tudo está em evolução, temos que estar abertos para aceitar e nos adaptar às mudanças ao longo dos anos. Não acredito em nenhuma modificação drástica, mas é normal que o formato do jornalismo possa sofrer determinadas adaptações, visando maior interatividade com o público.

SL: E com relação às reportagens sensacionalistas? Elas afastam ou atraem o público-alvo nos dias de hoje?
JR: Em minha opinião, as reportagens sensacionalistas são extremamente repulsivas. Isso porque o público está se tornando mais crítico a cada dia. Ele quer receber um produto final de qualidade, que demonstre verdade e utilidade, acima de qualquer questão.

SL: Quais são os seus projetos para os próximos anos?
JR: No momento, além de integrar a equipe de edição, estou fazendo a previsão do tempo e a apresentação dos jornais no SBT. Desejo, em breve, realizar reportagens especiais em programas jornalísticos como o SBT Repórter, por exemplo.

SL: E para saber mais a respeito de Joyce Ribeiro e/ou entrar em contato com a equipe de Jornalismo do SBT?
JR: Basta acessar ao site da emissora www.sbt.com.br, para obter outras informações e deixar mensagens à equipe de produção de cada jornal em referência. Eu também estou providenciando meu Blog, já em fase de construção. Aguardem as novidades!

SL: Joyce, agradecemos os esclarecimentos e a sua participação ímpar em nosso blog, trazendo informações pertinentes à área de Marketing. Desejamos-lhe muito sucesso e alegrias em toda a sua trajetória profissional...
JR: Muito obrigada pela atenção. Nós, jornalistas, continuamos seguindo nossos ideais, esperando que o povo brasileiro possa vencer a alienação e superar o problema da falta de instrução no decorrer dos anos. Acima de tudo, nós acreditamos no poder de uma sociedade mais humana e mais crítica diante dos acontecimentos no Brasil e no mundo.

2 comentários:

  1. adorei a materia, muito sucesso para as duas jornalistas preferidas

    ResponderExcluir
  2. Susana parabéns pela matéria com Joyce Ribeiro,e principalmente,pela sua dedicação à esse blog.

    ResponderExcluir