COM JOYCE RIBEIRO
À primeira vista, Marketing e Jornalismo possuem conceitos
significativamente opostos. Enquanto o primeiro almeja a venda e a notoriedade
de um produto ou serviço, o segundo traz a forma clara, isenta e verdadeira de
informação. Entretanto, a prática jornalística sutilmente começa a se render às
ferramentas do Marketing para se adaptar aos seus clientes e sobreviver no
mercado competitivo atual. E soma-se, nos dias de hoje, o fato de que a notícia
pode estar permeada de intenções mercadológicas. Afinal o texto jornalístico,
dito imparcial, em alguns casos também pode se inserir no contexto do Marketing
de Idéias, onde o posicionamento perante questões cotidianas passa a ser
essencial para conquistar credibilidade no mercado, consolidar a fidelidade de
seus leitores e/ou telespectadores e, consequentemente, manter ou aumentar as
vendas da organização.
| Foto: Divulgação |
A conceituada jornalista Joyce
Ribeiro conta, em entrevista exclusiva, quais os principais desafios da
carreira e de que maneira os Veículos de Comunicação exercem influência como
verdadeiros formadores de opinião na sociedade.
SL: Joyce, quando se originou a vontade de ser jornalista?
JR: Desde a minha adolescência. No começo, fiquei em dúvida entre
cursar Jornalismo ou Direito, porque o Jornalismo sempre foi a minha grande paixão,
mas seria difícil entrar na área posteriormente. Se eu estudasse Direito, na
minha concepção, teria uma profissão mais segura e mais definida na época. Mas
depois eu decidi arriscar tudo e fazer aquilo que eu realmente queria. Atualmente,
o mercado de trabalho é competitivo em todos os segmentos. Então, é melhor
investir naquilo que você mais gosta, porque fica mais fácil e prazeroso
alcançar o sucesso profissional.
SL: Como foi o início da sua carreira?
JR: Estudei na FIAM e na PUC, com pós-graduação em Jornalismo
Econômico, além de realizar cursos especializados no SENAC. Meu primeiro
emprego foi na Rede Mundial de Televisão da LBV, a realização de um sonho. No
início, trabalhava na pauta e a ajudava na produção. Aos poucos, comecei a
fazer reportagens sobre variedade e cultura, duas vertentes que eu adoro. Fazia
cobertura de festas, shows, peças de teatro, enfim, mostrava todas as
badalações noturnas da cidade. Revista
Cultural foi o primeiro programa que eu apresentei. Também me tornei
Assessora de Imprensa Musical durante um ano, mas em meados de 2003, minha
paixão falou mais alto e acabei voltando para a televisão. Desta vez, para a
RITTV, apresentando um telejornal convencional chamado Toda Hora. Mais tarde, apresentei o Fala Brasil na Rede Record e, posteriormente, fui para a Record
Internacional, que tinha uma programação transmitida apenas para afiliadas no
exterior. Adquiri muita experiência profissional apresentando o primeiro jornal
Record News, que futuramente acabou se
transformando no nome de toda a emissora. Pensando em retornar aos canais
abertos, comecei a trabalhar aqui no SBT apresentando o jornal SBT Manhã e as
substituições da Ana Paula Padrão. E até o momento, permaneço nesta casa que é
muito apreciada por mim e por todos.
SL: Você vivenciou algum tipo de preconceito ou frustração ideológica
no Jornalismo?
JR: Na verdade, frustração ideológica eu não tive, porque quando eu
deixei a faculdade já trabalhava na área jornalística. Tudo aconteceu
naturalmente para mim, embora reconheça a frustração de vários colegas meus. Mesmo
que esse olhar crítico e radical seja implantado na mentalidade dos universitários,
sempre acreditei que o que é bom deve ser preservado, ou seja, nem tudo precisa
ser mudado. Com relação ao preconceito racial, sempre tive uma visão otimista que,
infelizmente, com o passar dos anos se tornou mais realista. De forma
explícita, posso afirmar que não sofri preconceito na área profissional, talvez
até por uma questão de medo das conseqüências que os atos poderiam acarretar. Entretanto,
a gente percebe que a discriminação ainda está presente no âmbito mundial. Mas
o negro não deve se diminuir com estas manifestações negativas, pois ele deve
lutar pelos seus direitos e sempre se lembrar das pessoas importantes que
marcaram presença ao longo da nossa história.
SL: Como foi a experiência de apresentar a segunda edição do Aqui
Agora, considerado um dos jornais mais polêmicos da televisão brasileira?
JR: Apesar da segunda edição do Aqui
Agora ter sido exibida por pouco tempo, o jornal teve uma repercussão muito
favorável. De uma maneira geral, o jornal policial desperta o interesse do
público, porque ele mostra a verdade sem poupar o forte impacto ao
telespectador, além de ser considerado um porta-voz da população, buscando
soluções para os problemas da periferia. Mas ele tem que ser produzido com
muito zelo e responsabilidade, pois sou absolutamente contra a exibição de
pessoas mortas durante um tiroteio, por exemplo. No entanto, retratar a
realidade é a função do jornalismo e, por isso, o jornal policial precisa ser
explorado de maneira coerente, para instruir e conscientizar a todos de uma
forma bem positiva.
SL: Joyce, o que é mais gratificante para o jornalista?
JR: Sem dúvida, o aspecto mais gratificante é a prestação de
serviço à população, onde as informações úteis a serem transmitidas possam
oferecer praticidade ao telespectador, leitor ou ouvinte, que precisa se situar
no mundo em que ele vive.
SL: E você acredita que, em alguns casos, a função de jornalista é
almejada por estar relacionada a uma suposta imagem de “status”?
JR: Infelizmente acho que sim, porque a televisão tem este poder de
iludir as pessoas. Trabalhar na televisão é, de fato, muito gratificante. Mas não
ao jovem que deseja apenas ser famoso e ganhar muito dinheiro. Com os
sacrifícios, as dificuldades e as cobranças do ramo no dia-a-dia, este glamour
fica completamente esquecido (risos). Trabalhamos a qualquer hora, sacrificamos
a companhia dos amigos e familiares, enfrentamos desafios e, muitas vezes,
comprometemos até a nossa própria segurança física, com o intuito de divulgar a
informação verdadeira com agilidade e muito profissionalismo.
SL: Em sua opinião, quais as qualidades fundamentais para se tornar um
bom jornalista?
JR: Uma característica primordial é manter-se bem informado, além de conseguir selecionar as
informações mais relevantes. Um bom jornalista é um constante pesquisador, ou
seja, ele deve gostar de estudar, ler, ajudar às pessoas, prestar serviço e ser
útil ao próximo.
SL: Quais as principais dificuldades encontradas na profissão?
JR: Discernir as informações mais importantes ao público-alvo em
referência. Afinal, tudo é notícia,
tudo o que acontece no mundo é um fato. O desafio é perceber o que é necessário
ser divulgado. Para isso, é fundamental conhecer o receptor da mensagem, que na
minha humilde opinião, somente os anos e a dedicação podem oferecer essa
capacidade ao jornalista.
SL: Você já vivenciou alguma situação embaraçosa durante alguma
entrevista ou matéria de grande repercussão nacional?
JR: Sim, eu já troquei o nome de um entrevistado (risos). Logo na
minha primeira entrevista, misturei o nome dos atores de uma peça teatral,
trocando o nome de um com o sobrenome do outro. O pior é que eu só fui perceber
meu erro quando notei que eles começaram a rir muito daquela situação.
Aparentemente eu levei na esportiva, mas na verdade, eu fiquei muito sem graça.
Isso me marcou muito, porque basta lembrar deste acontecimento e eu fico
novamente morrendo de vergonha! (risos).
SL: Especificamente para a área do Telejornalismo, a questão da beleza
física é analisada?
JR: Em um primeiro momento, se a jornalista que estiver
transmitindo a mensagem ficar bem no vídeo, acho que pode trazer certo benefício,
afinal televisão é imagem. Mas isso não basta, porque no decorrer do tempo
aquilo deixará de ser novidade e o que irá surpreender e impressionar será o
fator da competência, além de outras qualidades profissionais que ela possa
evidenciar ao público.
SL: Quem são os profissionais que você mais admira no ramo?
JR: Eu admiro o trabalho de várias jornalistas consagradas como a
Fátima Bernardes, Ana Paula Padrão, Glória Maria, Zileide Silva e, inclusive, a
Rosana Jatobá, que encontrou uma forma muito legal de realizar a previsão do
tempo. Todas elas são fantásticas!
SL: Assim como observamos a crescente disponibilização de promoções e
brindes na compra de jornais impressos e revistas nas bancas, quais são os
tipos de marketing mais utilizados nos telejornais? Como o marketing se
confronta com a ética jornalística?
JR: Bem, no caso do telejornal, o único espaço destinado ao
marketing, aos anunciantes e às vendas se restringe ao espaço comercial,
destinado inteiramente à publicidade. Isso quer dizer que a publicidade não pode
exercer influência na linha editorial, pois ela deve respeitar os seus limites.
Obviamente, o espaço para a geração de negócios precisa existir, porque o
jornal necessita de recursos financeiros para se manter no veículo de
comunicação. E nesse mesmo contexto, cada veículo tem a sua própria ideologia,
os seus parceiros e a sua história. O erro é permitir que algum fator possa ser
determinante na linha editorial, coordenada pela direção de jornalismo. Não
podemos nos esquecer que a função básica do jornalismo é fundamentada no
comprometimento com a verdade. Por essa razão, jornais sérios retratam a
realidade como ela é, sem favoritismos e/ou interesses comerciais.
SL: “Ombudsman”, na tradução jornalística significa ouvidor,
profissional que analisa sugestões e cobranças sobre a correção de erros,
falhas, imprecisões, equívocos e direitos de resposta, uma espécie de
“advogado” do leitor. Podemos considerar essa prestação de serviço como uma
ferramenta do marketing de relacionamento?
JR: Com certeza, é uma ferramenta do marketing de relacionamento
muito válida para a instituição. Porque o cliente-leitor se sente reconhecido e
prestigiado ao perceber que suas opiniões são importantes.
SL: Os jornais impressos conseguem atingir um público-alvo tão
diversificado quanto aos telejornais? O tipo de linguagem é diferente?
JR: Acredito que, de um modo geral, as pessoas têm comprado menos
jornal atualmente. Elas preferem o telejornal, porque é mais rápido, dinâmico, prático,
direto e objetivo. E além disso, a linguagem costuma ser mais acessível a todas
as classes sociais.
SL: Você acha que o texto informativo, apesar da objetividade, pode
apresentar alguma mensagem subliminar?
JR: A regra correta é que não tenha nenhuma mensagem subliminar. Em
minha opinião, o trabalho do jornalista deve ser o mais claro possível.
SL: Apesar da constante busca pela verdade, a liberdade de expressão
ainda encontra barreiras para superar a censura da imprensa nos dias de hoje?
JR: Infelizmente, a censura ainda pode ocorrer em alguns casos. Não
se pode negar que cada veículo possui uma tendência ideológica. Mas a função do
jornalista é tentar agir o mais livre possível. Ou seja, o nosso dever é
trabalhar em algum veículo de comunicação que não utilize limitações que possam
agredir a profissão ou o público. É errado aceitar o protecionismo, escondendo
informações.
SL: Nesse mesmo contexto, você acha que todas as notícias divulgadas
estão em prol da sociedade? Existe certa manipulação das informações para
favorecer determinados interesses políticos e/ou de empresas privadas?
JR: Em determinados casos, lamentavelmente, alguns veículos fazem
certa manipulação de informações para favorecer a troca de interesses. Isso é
um problema gravíssimo, porque acaba prejudicando a imagem de outros veículos
de comunicação mais sérios. É por essa razão que o receptor não pode aceitar
tudo o que for divulgado na mídia, sem reflexão. Confirmar informações e
discernir críticas é uma forma de defesa que ele tem.
SL: Você denunciaria alguma irregularidade ocorrida em algum veículo de
comunicação?
JR: Sim, sem sentir medo ou receio. Desde que seja algo que possa
confrontar a ética profissional ou prejudicar alguém. Nosso trabalho, de uma
maneira geral, não é muito fácil. Temos que defender aquilo que é certo, mesmo que
às vezes este posicionamento possa nos trazer problemas e/ou conseqüências.
SL: Como ocorre a busca por algum fator diferencial na produção dos telejornais?
Como se procede a concorrência em relação aos “furos de reportagem”, ou seja,
às notícias divulgadas em primeira mão?
JR: Uma boa infra-estrutura pode determinar o bom desempenho diante
da concorrência. Mas isso não é tudo. Uma boa equipe de produção, equipamentos,
tecnologia, recursos e profissionais espalhados em locais estratégicos da
cidade são aspectos favoráveis. No entanto, a apuração dos fatos precisa ser
minuciosamente analisada e o jornalista precisa estar preparado e ficar atento
para não depender exclusivamente destes artifícios. Afinal, ele não pode se
precipitar, transmitindo informações erradas. Em determinados casos, é melhor
se desprender do pioneirismo e manter a credibilidade.
SL: Atualmente, a maioria dos telejornais adquire um mesmo formato
padrão, independente das emissoras a que pertencem. Em sua opinião, este
formato poderá sofrer mudanças de acordo com as novas tendências de mercado?
JR: Sim, com certeza. Assim como tudo está em evolução, temos que
estar abertos para aceitar e nos adaptar às mudanças ao longo dos anos. Não
acredito em nenhuma modificação drástica, mas é normal que o formato do
jornalismo possa sofrer determinadas adaptações, visando maior interatividade
com o público.
SL: E com relação às reportagens sensacionalistas? Elas afastam ou
atraem o público-alvo nos dias de hoje?
JR: Em minha opinião, as reportagens sensacionalistas são
extremamente repulsivas. Isso porque o público está se tornando mais crítico a
cada dia. Ele quer receber um produto final de qualidade, que demonstre verdade
e utilidade, acima de qualquer questão.
SL: Quais são os seus projetos para os próximos anos?
JR: No momento, além de integrar a equipe de edição, estou fazendo a
previsão do tempo e a apresentação dos jornais no SBT. Desejo, em breve,
realizar reportagens especiais em programas jornalísticos como o SBT Repórter,
por exemplo.
SL: E para saber mais a respeito de Joyce Ribeiro e/ou entrar em
contato com a equipe de Jornalismo do SBT?
JR: Basta acessar ao site da emissora www.sbt.com.br, para obter outras informações e deixar mensagens à
equipe de produção de cada jornal em referência. Eu também estou providenciando meu Blog, já em fase de construção. Aguardem
as novidades!
SL: Joyce, agradecemos os esclarecimentos e a sua participação ímpar em
nosso blog, trazendo informações pertinentes à área de Marketing. Desejamos-lhe
muito sucesso e alegrias em toda a sua trajetória profissional...
JR: Muito obrigada pela
atenção. Nós, jornalistas, continuamos seguindo nossos ideais, esperando que o
povo brasileiro possa vencer a alienação e superar o problema da falta de
instrução no decorrer dos anos. Acima de tudo, nós acreditamos no poder de uma
sociedade mais humana e mais crítica diante dos acontecimentos no Brasil e no
mundo.
adorei a materia, muito sucesso para as duas jornalistas preferidas
ResponderExcluirSusana parabéns pela matéria com Joyce Ribeiro,e principalmente,pela sua dedicação à esse blog.
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