domingo, 21 de julho de 2013

GO BUSINESS!

COM RAUL SCHLOSSER



Foto: Divulgação
Sucesso, no mundo dos negócios, é ter foco, perspectiva e perseverança. Conhecer habilidades e saber em quais áreas elas podem ser aplicadas com eficiência. Estudar de forma contínua, definir objetivos e metas, estar bem informado(a), conhecer outras profissões, criar estratégias e ficar antenado(a) às inovações e tendências do mercado de trabalho... Todas essas ações podem determinar bom êxito, triunfos e vitórias na vida de quem busca a concretização de sonhos e realizações. E o nosso Blog dá “aquele empurrãozinho” para você ir à luta e superar a concorrência! Neste post, saiba tudo sobre o ramo da dublagem no Brasil e aprenda dicas fundamentais com um dos maiores especialistas no assunto, Raul Schlosser, diretor-presidente da Uniarthe SP.

SL: Raul, há quanto tempo você se tornou um dublador?
RS: Desde 1991, mas me dediquei exclusivamente à dublagem em 1997. Fiz muitos estágios e treinamentos antes de conseguir a minha primeira oportunidade profissional.

SL: Como surgiu essa paixão na área da dublagem?
RS: Em meus programas de rádio em Nova Odessa, interior de São Paulo, adorava fazer imitações de vozes de políticos e celebridades. Quando cheguei à cidade de São Paulo para gravar um comercial, acabei conhecendo o Nelson Machado, o dublador do personagem ‘Kiko’ no seriado Chaves. Ele me convidou para conhecer a BKS, o maior estúdio de dublagem da América Latina. Foi paixão à primeira vista! Utilizar a voz como ferramenta de trabalho era exatamente tudo o que eu queria para a minha vida. E foi por esse amor à dublagem que eu me mudei definitivamente para a Capital.

SL: Quais são os requisitos fundamentais para ser um dublador? O desenvolvimento ou aprimoramento de diferentes tipos de voz e o domínio de várias línguas estrangeiras são características obrigatórias?
RS: Primeiramente, é necessário ser ator e gostar de representar. Realizar especialização em dublagem e muitos treinamentos para aprimorar e desenvolver as técnicas. Não precisa dominar nenhuma língua estrangeira porque o áudio original é utilizado apenas como referência, baseando-se no ‘script’ já pronto, traduzido e adaptado. Mas não se pode negar que um bom domínio da voz ajuda bastante, pois quanto maior a flexibilidade de voz do dublador, maior será a quantidade de personagens e atores que ele poderá interpretar.

SL: Qual o segredo do sucesso para um dublador?
RS: É buscar constantemente o aprimoramento profissional, tornar-se disponível e acessível aos trabalhos, ter autoconfiança e dedicação extrema, assistir às palestras e aos filmes dublados, realizar treinamentos, observar os profissionais consagrados na área, treinar dicção e impostação de voz, fazer contatos específicos e, por fim, visitar as casas de dublagem, porque quem não é visto também não será lembrado posteriormente.

SL: E a principal dificuldade que ele encontra nesta profissão?
RS: O dublador precisa encarar sua rotina com muita seriedade e atuar com excelência em qualidade, independente de qualquer situação, da distribuidora ou do tipo de trabalho. Se isso não ocorrer, ele não será escalado para outras dublagens.

SL: Qualquer ator está apto para trabalhar com dublagem?
RS: Sim, desde que ele possa se especializar em dublagem. Porque a dublagem tem uma linguagem própria e somente utiliza o recurso da voz para interpretação, onde a inflexão e a entonação adequadas serão adquiridas apenas com a prática. Estágios, treinamentos, pontas e participações gratuitas são os fatores indicados aos atores interessados que, além disso, precisam ser muito persistentes.

SL: Para dublar, é necessário algum cuidado específico com as cordas vocais?
RS: Sim, porque a corda vocal ou prega vocal é o seu instrumento de trabalho. A dublagem requer muitos cuidados em toda a boca, evitando aftas e dores nos dentes para manter uma boa dicção, desenvolvendo a articulação e aquecendo as pregas vocais antes de iniciar qualquer trabalho, para não arranhar a garganta. É fundamental evitar o consumo de alimentos gelados, cigarros, chocolates, entre outros. Maçã e água são recomendadas, além de exercícios que estimulem partes da boca para solucionar problemas como língua presa ou língua solta, por exemplo.

SL: Como é realizada a escolha da voz mais apropriada para determinado tipo de personagem? O reconhecimento e/ou fama do dublador interferem nesta seleção?
RS: No caso dos atores famosos como Bruce Willis, Jean-Claude Van Damme e Arnold Schwarzenegger, existe um dublador fixo e específico para cada um deles. Nos outros casos, o diretor checará qual é o tipo de voz do ator (grave, leve, média ou aguda) e esta análise proporcionará a escolha do dublador mais adequado. Com relação à fama do ator que vai dublar, em minha singela opinião, isso deveria ser um fator irrelevante. Isso ocorre principalmente nos filmes da Disney, da Pixar e da Dreamworks, onde alguns atores que estão em evidência são convidados para dublar e ajudar na divulgação ou ‘merchandising’ do filme, mas estes não possuem todos os conhecimentos e técnicas de um especialista na área da dublagem.

SL: E como ocorre a parceria entre os estúdios de dublagem e as distribuidoras dos filmes internacionais?
RS: Os estúdios de dublagem, hoje, fazem papéis de agências. O distribuidor apenas repassa o filme ao estúdio de dublagem, que acaba cuidando de todas as etapas de produção, incluindo a contratação e agenciamento dos atores, além do recebimento e direcionamento de todos os cachês. A meu ver, os estúdios deveriam apenas realizar os processos práticos de dublagem e cobrar por este serviço.

SL: Resumidamente, quais são as principais etapas no processo de dublagem?
RS: Após a entrega do filme pelo distribuidor, o estúdio de dublagem assume todo o processo, repassando uma cópia para o tradutor que checará o ‘script’ e a métrica para adaptação de cada fala. Faz-se o mapeamento, ou seja, o corte do texto em anéis. Cada anel equivale a vinte segundos de fala. Dessa forma, estipula-se que vinte anéis correspondem à uma hora de gravação, sendo esta carga horária uma base para a forma de pagamento de cada dublador. Utilizando programas como o ProTools ou Vegas, o diretor e o técnico assistem e montam o projeto, elaborando o planejamento de escala dos dubladores. Logo depois da captação das vozes existe a etapa de finalização, em outras palavras, a verificação de possíveis falhas de dublagem. Mais tarde, a mixagem com ME (músicas e efeitos) é acrescentada para que o filme seja encaminhado à fase de autoração, confecção de legendas e, em alguns casos, ‘design’ de capa.

SL: Quais as vantagens de se assistir ao filme dublado?
RS: Geralmente, a legenda utiliza a mesma tradução da dublagem para não ficar muito diferente no filme. Mas há determinados trechos em que a legenda precisa ser mais resumida de acordo com a fala do personagem, porque ela precisa ser dinâmica e objetiva ao expectador. Sendo assim, a legenda promove a falta de informações, dificulta a atenção de quem assiste ao filme (incluindo os filmes em terceira dimensão) e impossibilita o acesso de semi-analfabetos, idosos e crianças (seja por problemas visuais ou por falta de hábito da leitura).

SL: Atualmente, quais os principais estúdios de dublagem e a relação de concorrência entre eles?
RS: Existem 26 estúdios de dublagem em São Paulo e 16 no Rio de Janeiro, dentre eles: BKS, Álamo, Centauro, Dubla Vídeo, Digimon, Uniarthe, Marshmellow, Mastersound, Windstar, Phoenix, Sincrovídeo, Telecine, Delart, Cinevídeo, Dublamix, Som de Vera Cruz, Double Sound, Herbert Richers, Wan Macher, RGA e VTI. Não há concorrência muito acentuada, porque o mercado da dublagem é amplo. Ele não se restringe à televisão e home vídeo, mas abrange também TV a cabo, TV aberta, cinema, ‘Sell-Thru’ (venda de magazines) e, ainda, TVs em aeroportos, aviões e ônibus. E se houver dois distribuidores diferentes, pode acontecer variação de elenco e dublagens distintas em um mesmo filme.

SL: Existe alguma diferença entre dublar filmes ou desenhos?
RS: Sim. No filme a respiração, a sincronia e a embocadura do ator precisam ser perfeitas. A fala precisa estar mais segura e não pode entrar no caricato, muito utilizado em dublagens de desenhos.

SL: Você acha que o ramo da dublagem está em ascensão no Brasil?
RS: Sim, com certeza. A cada dia surgem novas distribuidoras, novos filmes de longa-metragem nacionais, além das animações e produções em terceira dimensão. Inclusive, recentemente foi criada a Associação Brasileira do Cinema de Animação. Com isso, muitos canais de TV começaram a inovar sua programação e incorporaram filmes e desenhos na grade. O elenco de atores-dubladores se renova com muita rapidez, ou seja, sempre há espaço para os novos talentos. Atualmente, temos séries longas com vários episódios que garantem certa continuidade e estabilidade de trabalho, produções novas e valorização de filmes europeus, além dos americanos. A indústria cinematográfica está em constante evolução.

SL: Por que não existem muitos livros disponíveis sobre este assunto?
RS: Faltam livros sobre dublagem no mercado devido à falta de interesse das editoras, lamentavelmente. O especialista Nelson Machado, por exemplo, escreveu um livro chamado “Versão Brasileira” que conta toda a história da dublagem no Brasil. Mas, infelizmente, ele não conseguiu publicar este livro em editora nenhuma. Ele teve que bancar a própria publicação, divulgação e, apesar das dificuldades, já foram vendidos vários exemplares. Se alguém se interessar, basta encaminhar e-mail para nmachado@uol.com.br.

SL: Raul, o que é a Uniarthe? Quando e como ela surgiu?
RS: A Uniarthe é uma Cooperativa de Trabalho dos Artistas e Técnicos em Espetáculos, sem fins lucrativos e fundada em novembro de 2003, com o intuito de oferecer oportunidade aos novos artistas, principalmente, atores e dubladores. Vários técnicos, atores, músicos, cantores e bailarinos se uniram nesta causa nobre onde, inicialmente, os profissionais cooperados seriam apenas oferecidos a outras empresas. Mas apesar de oferecermos mão-de-obra altamente qualificada, raras vezes alguns agenciados eram solicitados para pequenas participações. Com todo esse boicote, iniciamos nossas atividades e conseguimos provar, após quatro anos, toda a nossa credibilidade em serviços.

SL: Quais os tipos de trabalhos desenvolvidos pela Uniarthe SP?
RS: Dublagem, teatro, produção cinematográfica áudio-visual, publicidade, cursos de qualificação profissional na área de dublagem, além de treinamentos e especializações oferecidas para quem já possui o registro de ator.

SL: Aos interessados, como obter outras informações sobre cursos e afins?
RS: Basta visitar nossa página na internet http://uniarthe.blogspot.com ou encaminhar mensagens para uniarthe.sp@terra.com.br. E para quem não tem acesso à internet, entre em contato nos telefones 3120-4997, 2839-7371 ou 2867-6367. Ficaremos felizes em atendê-los!

SL: Para finalizar, qual a mensagem que você deixaria a quem deseja ingressar nesta área?
RS: Dedique-se bastante, percorra seus ideais, estude muito sobre o assunto e conheça o mercado de trabalho. Sua voz sempre irá ‘casar’ com algum ator, mas não se pode encarar a dublagem apenas como um ‘bico’, pois dessa forma não existe o progresso. É preciso levar a sério, procurar novas chances, novas oportunidades e se especializar para alcançar, certamente, um futuro promissor. Se há vocação, gosto pela leitura e interpretação, constantes imitações e brincadeiras com a voz, estamos esperando por você! 

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