COM RAUL SCHLOSSER
| Foto: Divulgação |
SL: Raul, há quanto tempo você se tornou
um dublador?
RS: Desde 1991, mas me dediquei exclusivamente à dublagem em 1997. Fiz
muitos estágios e treinamentos antes de conseguir a minha primeira oportunidade
profissional.
SL: Como surgiu essa paixão na área da
dublagem?
RS: Em meus programas de rádio em Nova Odessa , interior de São Paulo, adorava fazer
imitações de vozes de políticos e celebridades. Quando cheguei à cidade de São
Paulo para gravar um comercial, acabei conhecendo o Nelson Machado, o dublador
do personagem ‘Kiko’ no seriado Chaves. Ele me convidou para conhecer a BKS, o
maior estúdio de dublagem da América Latina. Foi paixão à primeira vista! Utilizar
a voz como ferramenta de trabalho era exatamente tudo o que eu queria para a
minha vida. E foi por esse amor à dublagem que eu me mudei definitivamente para
a Capital.
SL: Quais são os requisitos fundamentais
para ser um dublador? O desenvolvimento ou aprimoramento de diferentes tipos de
voz e o domínio de várias línguas estrangeiras são características obrigatórias?
RS: Primeiramente, é necessário ser ator e gostar de representar. Realizar
especialização em dublagem e muitos treinamentos para aprimorar e desenvolver
as técnicas. Não precisa dominar nenhuma língua estrangeira porque o áudio
original é utilizado apenas como referência, baseando-se no ‘script’ já pronto,
traduzido e adaptado. Mas não se pode negar que um bom domínio da voz ajuda
bastante, pois quanto maior a flexibilidade de voz do dublador, maior será a
quantidade de personagens e atores que ele poderá interpretar.
SL: Qual o segredo do sucesso para um dublador?
RS: É buscar constantemente o aprimoramento profissional, tornar-se
disponível e acessível aos trabalhos, ter autoconfiança e dedicação extrema, assistir
às palestras e aos filmes dublados, realizar treinamentos, observar os
profissionais consagrados na área, treinar dicção e impostação de voz, fazer
contatos específicos e, por fim, visitar as casas de dublagem, porque quem não
é visto também não será lembrado posteriormente.
SL: E a principal dificuldade que ele
encontra nesta profissão?
RS: O dublador precisa encarar sua rotina com muita seriedade e atuar com
excelência em qualidade, independente de qualquer situação, da distribuidora ou
do tipo de trabalho. Se isso não ocorrer, ele não será escalado para outras
dublagens.
SL: Qualquer ator está apto para
trabalhar com dublagem?
RS: Sim, desde que ele possa se especializar em dublagem. Porque
a dublagem tem uma linguagem própria e somente utiliza o recurso da voz para
interpretação, onde a inflexão e a entonação adequadas serão adquiridas apenas com
a prática. Estágios, treinamentos, pontas e participações gratuitas são os
fatores indicados aos atores interessados que, além disso, precisam ser muito
persistentes.
SL: Para dublar, é necessário algum
cuidado específico com as cordas vocais?
RS: Sim, porque a corda vocal ou prega vocal é o seu instrumento de
trabalho. A dublagem requer muitos cuidados em toda a boca, evitando aftas e
dores nos dentes para manter uma boa dicção, desenvolvendo a articulação e aquecendo
as pregas vocais antes de iniciar qualquer trabalho, para não arranhar a
garganta. É fundamental evitar o consumo de alimentos gelados, cigarros,
chocolates, entre outros. Maçã e água são recomendadas, além de exercícios que
estimulem partes da boca para solucionar problemas como língua presa ou língua
solta, por exemplo.
SL: Como é realizada a escolha da voz
mais apropriada para determinado tipo de personagem? O reconhecimento e/ou fama
do dublador interferem nesta seleção?
RS: No caso dos atores famosos como Bruce Willis, Jean-Claude Van Damme e Arnold
Schwarzenegger, existe um dublador fixo e específico para cada um deles. Nos
outros casos, o diretor checará qual é o tipo de voz do ator (grave, leve,
média ou aguda) e esta análise proporcionará a escolha do dublador mais
adequado. Com relação à fama do ator que vai dublar, em minha singela opinião,
isso deveria ser um fator irrelevante. Isso ocorre principalmente nos filmes da
Disney, da Pixar e da Dreamworks, onde alguns atores que estão em evidência são
convidados para dublar e ajudar na divulgação ou ‘merchandising’ do filme, mas estes
não possuem todos os conhecimentos e técnicas de um especialista na área da
dublagem.
SL: E como ocorre a parceria entre os
estúdios de dublagem e as distribuidoras dos filmes internacionais?
RS: Os estúdios de dublagem, hoje, fazem papéis de agências. O distribuidor
apenas repassa o filme ao estúdio de dublagem, que acaba cuidando de todas as
etapas de produção, incluindo a contratação e agenciamento dos atores, além do
recebimento e direcionamento de todos os cachês. A meu ver, os estúdios
deveriam apenas realizar os processos práticos de dublagem e cobrar por este
serviço.
SL: Resumidamente, quais são as principais
etapas no processo de dublagem?
RS: Após a entrega do filme pelo distribuidor, o estúdio de dublagem assume
todo o processo, repassando uma cópia para o tradutor que checará o ‘script’ e
a métrica para adaptação de cada fala. Faz-se o mapeamento, ou seja, o corte do
texto em anéis. Cada
anel equivale a vinte segundos de fala. Dessa forma, estipula-se que vinte
anéis correspondem à uma hora de gravação, sendo esta carga horária uma base
para a forma de pagamento de cada dublador. Utilizando programas como o ProTools
ou Vegas, o diretor e o técnico assistem e montam o projeto, elaborando o
planejamento de escala dos dubladores. Logo depois da captação das vozes existe
a etapa de finalização, em outras palavras, a verificação de possíveis falhas
de dublagem. Mais tarde, a mixagem com ME (músicas e efeitos) é acrescentada
para que o filme seja encaminhado à fase de autoração, confecção de legendas e,
em alguns casos, ‘design’ de capa.
SL: Quais as vantagens de se assistir ao
filme dublado?
RS: Geralmente, a legenda utiliza a mesma tradução da dublagem para não
ficar muito diferente no filme. Mas há determinados trechos em que a legenda
precisa ser mais resumida de acordo com a fala do personagem, porque ela
precisa ser dinâmica e objetiva ao expectador. Sendo assim, a legenda promove a
falta de informações, dificulta a atenção de quem assiste ao filme (incluindo
os filmes em terceira dimensão) e impossibilita o acesso de semi-analfabetos, idosos
e crianças (seja por problemas visuais ou por falta de hábito da leitura).
SL: Atualmente, quais os principais
estúdios de dublagem e a relação de concorrência entre eles?
RS: Existem 26 estúdios de dublagem em São Paulo e 16 no Rio de Janeiro, dentre eles: BKS,
Álamo, Centauro, Dubla Vídeo, Digimon, Uniarthe, Marshmellow, Mastersound,
Windstar, Phoenix, Sincrovídeo, Telecine, Delart, Cinevídeo, Dublamix, Som de
Vera Cruz, Double Sound, Herbert Richers, Wan Macher, RGA e VTI. Não há concorrência
muito acentuada, porque o mercado da dublagem é amplo. Ele não se restringe à
televisão e home vídeo, mas abrange também TV a cabo, TV aberta, cinema, ‘Sell-Thru’
(venda de magazines) e, ainda, TVs em aeroportos, aviões e ônibus. E se houver
dois distribuidores diferentes, pode acontecer variação de elenco e dublagens
distintas em um mesmo filme.
SL: Existe alguma diferença entre dublar
filmes ou desenhos?
RS: Sim. No filme a respiração, a sincronia e a embocadura do ator precisam
ser perfeitas. A fala precisa estar mais segura e não pode entrar no caricato, muito
utilizado em dublagens de desenhos.
SL: Você acha que o ramo da dublagem
está em ascensão no Brasil?
RS: Sim, com certeza. A cada dia surgem novas distribuidoras, novos filmes
de longa-metragem nacionais, além das animações e produções em terceira
dimensão. Inclusive, recentemente foi criada a Associação Brasileira do Cinema
de Animação. Com isso, muitos canais de TV começaram a inovar sua programação e
incorporaram filmes e desenhos na grade. O elenco de atores-dubladores se
renova com muita rapidez, ou seja, sempre há espaço para os novos talentos. Atualmente,
temos séries longas com vários episódios que garantem certa continuidade e
estabilidade de trabalho, produções novas e valorização de filmes europeus,
além dos americanos. A indústria cinematográfica está em constante evolução.
SL: Por que não existem muitos livros
disponíveis sobre este assunto?
RS: Faltam livros sobre dublagem no mercado devido à falta de interesse das
editoras, lamentavelmente. O especialista Nelson Machado, por exemplo, escreveu
um livro chamado “Versão Brasileira” que conta toda a história da dublagem no
Brasil. Mas, infelizmente, ele não conseguiu publicar este livro em editora
nenhuma. Ele teve que bancar a própria publicação, divulgação e, apesar das
dificuldades, já foram vendidos vários exemplares. Se alguém se interessar,
basta encaminhar e-mail para nmachado@uol.com.br.
SL: Raul, o que é a Uniarthe? Quando e
como ela surgiu?
RS: A Uniarthe é uma Cooperativa de Trabalho dos Artistas e Técnicos em
Espetáculos, sem fins lucrativos e fundada em novembro de 2003, com o intuito
de oferecer oportunidade aos novos artistas, principalmente, atores e
dubladores. Vários técnicos, atores, músicos, cantores e bailarinos se uniram
nesta causa nobre onde, inicialmente, os profissionais cooperados seriam apenas
oferecidos a outras empresas. Mas apesar de oferecermos mão-de-obra altamente
qualificada, raras vezes alguns agenciados eram solicitados para pequenas
participações. Com todo esse boicote, iniciamos nossas atividades e conseguimos
provar, após quatro anos, toda a nossa credibilidade em serviços.
SL: Quais os tipos de trabalhos
desenvolvidos pela Uniarthe SP?
RS: Dublagem, teatro, produção cinematográfica áudio-visual, publicidade, cursos
de qualificação profissional na área de dublagem, além de treinamentos e
especializações oferecidas para quem já possui o registro de ator.
SL: Aos interessados, como obter outras
informações sobre cursos e afins?
RS: Basta visitar nossa página na internet http://uniarthe.blogspot.com
ou encaminhar mensagens para uniarthe.sp@terra.com.br.
E para quem não tem acesso à internet, entre em contato nos telefones
3120-4997, 2839-7371 ou 2867-6367. Ficaremos felizes em atendê-los!
SL: Para finalizar, qual a mensagem que
você deixaria a quem deseja ingressar nesta área?
RS: Dedique-se bastante, percorra seus ideais, estude muito sobre o assunto e conheça o mercado de trabalho. Sua voz sempre irá ‘casar’ com algum ator, mas não se pode encarar a dublagem apenas como um ‘bico’, pois dessa forma não existe o progresso. É preciso levar a sério, procurar novas chances, novas oportunidades e se especializar para alcançar, certamente, um futuro promissor. Se há vocação, gosto pela leitura e interpretação, constantes imitações e brincadeiras com a voz, estamos esperando por você!
RS: Dedique-se bastante, percorra seus ideais, estude muito sobre o assunto e conheça o mercado de trabalho. Sua voz sempre irá ‘casar’ com algum ator, mas não se pode encarar a dublagem apenas como um ‘bico’, pois dessa forma não existe o progresso. É preciso levar a sério, procurar novas chances, novas oportunidades e se especializar para alcançar, certamente, um futuro promissor. Se há vocação, gosto pela leitura e interpretação, constantes imitações e brincadeiras com a voz, estamos esperando por você!
BRAVO!
ResponderExcluirParabéns ao profissional e a entrevistadora!!!
ResponderExcluirParabéns por mais uma excelente matéria postada!!!!!!
ResponderExcluirOii legau o sr. Raul poderia entra em contato com esse sonia.woodson1995@gmail.com
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