sexta-feira, 21 de março de 2014

MEMORÁVEIS


Foto: Susana Lima

Hoje o sorriso ficou triste... Vítima de infarte agudo do miocárdio, morreu nesta tarde de sexta-feira (21), Aloísio Ferreira Gomes - o humorista Canarinho do programa A Praça é Nossa do SBT – aos 86 anos de idade. Nós, do Blog Sucesso®, lamentamos a perda deste humorista tão reverenciado e deixamos nossos sentimentos aos familiares e amigos desta pessoa tão nobre, carinhosa e humilde. Como singela homenagem, nosso post contempla uma entrevista exclusiva realizada em 2010, publicada na revista “A Sua Cara” pela Editora Serrano  e produzida pela jornalista Susana Lima. Esteja onde estiver, receba as nossas palmas infinitas a você, Canarinho!




“UM VÔO DE SABEDORIA COM CANARINHO”

Ele é uma pessoa de muitos talentos... Um coração terno, simplicidade e simpatia ímpares. Características reveladas em uma pessoa com tantos atributos e qualidades nobres! É com enorme satisfação que a Revista A Sua Cara orgulhosamente reverencia uma das maiores personalidades do humor brasileiro. Senhoras e senhores: conheçam toda a essência, a humildade e a alegria de viver do artista Canarinho!                                        (Por Susana Lima)


SL: Seu nome de batismo é Aloísio Ferreira Gomes. Qual a origem do apelido “Canarinho”?
CA: Porque eu sou bonitinho (risos). Na verdade, comecei minha carreira artística em 1947, cantando músicas nacionais, americanas, italianas, francesas e portenhas. Nessa época, eu cantava na noite e na rádio Excelsior da Bahia. Podia ser “Night and Day”, “I Love You”, não importava a língua, eu sempre corria atrás e aprendia. Até que um dia fui convidado a participar de uma orquestra internacional, onde se originou o apelido “El Canaro”. Com o passar do tempo, começaram a me chamar simplesmente de “Canarinho”.

SL: Por que você escolheu o humor como ferramenta de trabalho? Como foi o início da sua carreira?
CA: Porque o humor é sublime. Não há nada melhor do que fazer o outro sorrir. E no meu caso foi tudo muito natural, ou seja, nada programado. Por volta dos anos 50, fazia shows noturnos para os turistas no Rio de Janeiro. Eu já conhecia grandes personalidades da época como: Russo do Pandeiro, Bando da Lua e Carmem Miranda. Mas quando cheguei a São Paulo conheci Manoel de Nóbrega. Comecei a trabalhar com ele e nos apaixonamos (risos). Posso afirmar, com absoluta certeza, que Manoel me tornou comediante, assim como ele ajudou Golias, Carlos Alberto, entre outros grandes artistas. Com ele eu aprendi a fazer teatro, cinema, televisão, ou seja, desenvolvi a arte de representar. Sem dúvidas ele foi o mestre dos mestres.

SL: Neste mesmo contexto, você acha que fazer humor é aptidão pessoal ou capacidade desenvolvida ao longo dos anos?
CA: Ambos. Mas como não existe escola específica para comediantes, as pessoas precisam ter um talento natural na área do humor para conseguirem estabelecer um bom desempenho nos palcos. Precisa ser algo espontâneo, assim como as atitudes de uma criança.

SL: Canarinho, além da sua inesquecível participação na primeira versão do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” nos anos 70, na novela “Jerônimo - o Herói do Sertão” em 1972, e em diversos filmes durante sua trajetória profissional, quais foram os seus trabalhos mais marcantes?
CA: Creio que o programa “Praça da Alegria” com Manoel de Nóbrega foi um dos mais marcantes na minha carreira, além da novela “Meu Pedacinho de Chão” da TV Cultura, reprisada inúmeras vezes. Este trabalho me consagrou como melhor ator. Jamais poderia esquecê-lo, assim como “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”, uma verdadeira obra-prima de Monteiro Lobato. E recentemente, para a minha total felicidade, o programa “A Praça é Nossa” traz recordações dos bons momentos que eu vivenciei como um dos fundadores da Praça da Alegria.

SL: Você foi considerado o primeiro negro da televisão brasileira?
CA: Sim. E não foi fácil vencer o preconceito em um país extremamente racista. O problema é que a discriminação racial ainda está presente nos dias atuais, porém, em menores proporções. Além disso, tenho orgulho em dizer que eu consegui colocar a primeira negra nas propagandas da extinta TV Paulista, durante a exibição do meu programa “Samba e Etc.”. Hoje eu vejo vários negros na televisão brasileira e sinto-me lisonjeado. Tenho muita honra em ser negro!

SL: Como foi sua experiência como apresentador no programa Clube dos Artistas?
CA: Fantástica! Na verdade, eu participei de diversificados estilos de programas. Em outras palavras, tive programas de variedades, infantis, musicais e humorísticos. Conheci inúmeras emissoras de televisão consagradas como, por exemplo, Cultura, Tupi, Excelsior e a TV Paulista, atual Globo. Mas foi durante o programa “Clube dos Artistas” que eu ganhei vários prêmios como melhor apresentador.

SL: É verdade que você já foi colunista de esportes no Jornal Folha da Manhã?
CA: Sim, é verdade. Eu também fui locutor esportivo e trabalhei como volante de campo. Nesta época, Jorge de Souza se consagrava como um dos maiores locutores do Brasil. Bons tempos... Lembro que a gente entrava no campo e entrevistava os jogadores, enfim, era uma farra! Sempre tinha muita piada e descontração (risos). Já cheguei a transmitir, inclusive, algumas corridas de cavalos. Acredita? (risos)

SL: Como foi a convivência com o saudoso Manoel de Nóbrega? A Praça da Alegria deixou muitas saudades?
CA: Puxa vida, você nem pode imaginar! Manoel de Nóbrega foi o ser mais maravilhoso que eu conheci. Inteligente, honesto e trabalhador. Meu eterno professor!

SL: Respectivamente, Praça da Alegria, Praça Brasil e, atualmente, A Praça é Nossa. O que mudou na caracterização dos diferentes personagens que você já interpretou ao longo da sua carreira?
CA: Somente os fatores tempo e receptividade. Tudo precisa ser bem adequado ao momento presente. Isso porque o humorismo é a arte mais rápida do mundo. Sendo assim, quando você faz uma graça, pode-se analisar a reação das pessoas e obter resposta imediata do público.

SL: Como definir Carlos Alberto de Nóbrega?
CA: Carlos Alberto de Nóbrega é filho de Manoel, o professor dos artistas que hoje dá aula no céu (risos). Posso definir Carlos Alberto como um grande amigo e parceiro.

SL: E Ronald Golias, o que ele representava para você?
CA: Golias era o máximo! O cara mais cômico que eu conheci em toda a minha vida! Ele era naturalmente engraçado. Se ele espirrasse, eu dava risada! (risos) Acho que sorrir significa manter seu corpo em festa... E eu quero viver em festa sempre.

SL: De um modo geral, qual o segredo do sucesso para o programa no formato do pioneiro Praça da Alegria permanecer por tanto tempo no ar?
CA: Seriedade e profissionalismo. É se informar dos fatos engraçados do nosso cotidiano e transformá-los em humor, sempre mantendo o respeito aos envolvidos e o carinho com o programa.

SL: Qual o fator mais gratificante em trabalhar durante todos estes anos na emissora de Silvio Santos?
CA: É exatamente a própria lealdade e a simplicidade que o Silvio nos oferece. Ele é tão simples que muita gente censura esta simplicidade dele. Ele não demonstra superioridade a ninguém, não tem necessidade de se exibir, faz tudo com amor e é um chefe de família exemplar. É impressionante observar como o Silvio Santos se diverte ao fazer todos os seus programas como se ele nem fosse o empresário, parece que ele realmente depende daquele salário para sobreviver. Por ele ser tão correto e honesto, acho que seria o melhor Presidente da República que este país poderia ter.

SL: Canarinho, quem foi a sua principal fonte de inspiração no início da sua carreira? E quem é o seu ídolo atualmente?
CA: Bem, lembro-me que quando eu era criança costumava olhar para cima e dizia para mim mesmo “Sorria pra Deus, sorria pra natureza, sorria pra vida...”. Acho que a natureza existe e ela age conforme seus pensamentos. Imaginava que ao crescer eu teria uma profissão muito aplaudida, uma família maravilhosa, uma casa confortável e ganharia o suficiente para viver. E tudo isso Deus me deu! Por isso, Deus sempre foi minha fonte de inspiração, de força e perseverança. Ele me deu muito mais do que eu esperava, do que eu pedia. Hoje, os meus colegas de trabalho são os meus ídolos também, porque eu aprecio o trabalho e a garra de todos. Eu tenho muita facilidade para rir, porque eu sou uma pessoa feliz acima de qualquer situação. E acho que a pessoa feliz vive melhor, gosta de todo mundo e não promove a violência.

SL: Na arte do humor, como fazer o outro sorrir quando você está triste?
CA: O primeiro passo é não dar espaço para a tristeza. Para isso, basta olhar os feitos, as conquistas realizadas. Eu penso sempre na seguinte frase “Em volta de mim tem que ter um jardim. Todo mundo tem que estar bem, porque eu quero ser rodeado de pessoas felizes”. Ao longo da minha história eu salvei várias vidas, literalmente, atuando como médico, parteiro, dentista, enfim, socorri pessoas doentes, dei oportunidade para muita gente na televisão, ensinei até analfabeto a trabalhar... É importante agradecer a Deus pelas bênçãos recebidas diariamente. E ajudar ao próximo sempre me faz sentir bem. Acredito que praticar o bem é um caminho para a própria realização pessoal.

SL: Você acha que é mais fácil ser humorista no Brasil nos dias de hoje? Há espaço para todos os novos talentos na mídia?
CA: Em minha opinião, a competição sempre será a mesma. Sabe por quê? O bom comediante se eterniza. Atitude é tudo, não importa o passar dos anos. Quando a pessoa tem talento, ela precisa buscar seu espaço. E não encarar seus concorrentes apenas como uma ameaça, pois ela pode e deve aprender algo com eles. Por exemplo, podemos ver tantos bons jogadores de futebol por aí no mercado esportivo atualmente, mas por enquanto só existe um Pelé em toda a história do futebol, não é verdade? Da mesma forma, o humorista também precisa almejar uma melhor performance a cada dia, não apenas para competir com a concorrência, mas principalmente para ele mesmo se superar! Ninguém permanece muito tempo sozinho no topo de algo, somente Jesus possui essa capacidade. Para mim, é um prazer incentivar, elogiar, prestigiar, respeitar, torcer pelas vitórias e reconhecer o valor dos meus colegas de trabalho. Sei que eu tenho muita experiência a transmitir para eles.

SL: Geralmente, quem costuma escrever os textos e criar as piadas em um programa humorístico? É o próprio ator comediante ou o redator do programa?
CA: Depende de cada estilo de produção. Em alguns casos, são os próprios atores comediantes, em outros, os redatores. Não há uma regra a ser seguida. Essa é uma pergunta interessante, pois existem atores que simplesmente não conseguem escrever, apenas representam. O segredo é descobrir uma verdade polêmica, ou uma problemática do nosso cotidiano, e escrevê-la com graça. No meu caso, sempre gostei de escrever e já elaborei textos até para outros personagens.

SL: Canarinho, o que é “a sua cara”?
CA: Ser profissional, acima de tudo, em todas as áreas da minha vida. Ser um bom marido, pai de família, artista, ator, cantor, compositor, enfim, manter sempre o profissionalismo e fazer tudo com o coração.

SL: E o que não é “a sua cara”?
CA: Falsidade. É a pior coisa que existe! E eu confesso que nasci para ser traído... Tenho bom coração e acredito em todo mundo. Inclusive, já fui traído pela mesma pessoa por inúmeras vezes, sem guardar rancor. Não apenas na questão afetiva ou amorosa, mas na questão profissional também. De uma maneira geral, eu sempre ajudo as pessoas sem esperar por qualquer reconhecimento. Sei que não tenho méritos para julgar ou perdoar ninguém, mas acho que cada um dá o que tem. Ou seja, você só conseguirá oferecer lealdade se, de fato, for uma pessoa leal consigo mesma. E quem não se ama, também não consegue amar ao próximo.

SL: Você está preparando novos projetos para 2010?
CA: Sim, tenho planos até para 2027 quando completarei cem anos, se Deus quiser! Vou dar uma grande festa! (risos). Brincadeiras à parte, pretendo continuar com muita alegria no programa “A Praça é Nossa” em 2010, trazendo os personagens já consagrados e oferecendo novidades sempre com muito carinho ao público. Estou criando um personagem do típico brasileiro aposentado, ou podemos ainda usar o termo “apoquentado” (risos), que na linguagem informal significa pessoa aflita, torturada pela burocracia da sociedade... Ah, mas isso ainda é surpresa, não posso contar! Posteriormente, gostaria de elaborar um livro, uma espécie de biografia para contar um pouquinho da minha trajetória profissional. Veja bem, eu tenho quase setenta anos de carreira artística... Recentemente até apareceu um cineasta que planejava um curta-metragem sobre a minha vida. Mas era muita coisa para contar, não dava para reduzir toda a história... (risos)
  
SL: E para saber mais a respeito de seus trabalhos?
CA: Fácil! Meu site é www.artistacanarinho.com.br. Vocês encontram curiosidades e algumas fotos dos meus trabalhos anteriores, personagens atuais, além de recordações minhas ao lado de pessoas inesquecíveis.

SL: Canarinho, que os mais belos ventos possam continuar te conduzindo aos caminhos da felicidade e do sucesso! Você é um verdadeiro exemplo de história de vida a todos! Muito obrigada por nos conceder essa entrevista, considerada como uma das mais importantes já realizadas pela nossa equipe de redação.
CA: Muito obrigado por suas palavras. Diante de tantas dificuldades atuais, nós comediantes tentamos levar um pouquinho de alegria à população. Vamos torcer para que nossas crianças encontrem um mundo melhor do que o nosso, em todos os sentidos, vencendo desafios e aprendendo a descobrir o verdadeiro sentido da vida. Uma sociedade mais justa, mais humana, mais unida e menos preconceituosa. Desejo inúmeras conquistas a todos para o ano que se inicia. Obrigado.

2 comentários:

  1. Uma figura espetacular este Canarinho.
    Obrigado Susana pela homenagem dada a ele.

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  2. MARCOU UMA GERACAO>>>D.J.

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