| Foto: Susana Lima |
Hoje
o sorriso ficou triste... Vítima de infarte agudo do miocárdio, morreu nesta
tarde de sexta-feira (21), Aloísio
Ferreira Gomes - o humorista Canarinho do programa A Praça é Nossa do SBT – aos 86 anos de idade. Nós, do Blog Sucesso®,
lamentamos a perda deste humorista tão reverenciado e deixamos nossos
sentimentos aos familiares e amigos desta pessoa tão nobre, carinhosa e humilde.
Como singela homenagem, nosso post contempla uma entrevista exclusiva realizada
em 2010, publicada na revista “A Sua Cara” pela Editora Serrano e produzida pela
jornalista Susana Lima. Esteja onde estiver, receba as nossas palmas infinitas a você, Canarinho!
“UM VÔO DE SABEDORIA COM CANARINHO”
Ele é uma
pessoa de muitos talentos... Um
coração terno, simplicidade e simpatia ímpares.
Características reveladas em uma pessoa com tantos atributos e qualidades
nobres! É com enorme satisfação que a Revista
A Sua Cara orgulhosamente reverencia
uma das maiores
personalidades do humor brasileiro. Senhoras e senhores: conheçam toda a essência, a humildade e a alegria de viver do
artista Canarinho! (Por Susana Lima)
SL: Seu nome de batismo é
Aloísio Ferreira Gomes. Qual a origem do apelido “Canarinho”?
CA: Porque eu sou bonitinho (risos). Na verdade, comecei minha carreira
artística em 1947, cantando músicas nacionais, americanas, italianas, francesas
e portenhas. Nessa época, eu cantava na noite e na rádio Excelsior da Bahia.
Podia ser “Night and Day”, “I Love You”, não importava a língua, eu sempre
corria atrás e aprendia. Até que um dia fui convidado a participar de uma
orquestra internacional, onde se originou o apelido “El Canaro”. Com o passar
do tempo, começaram a me chamar simplesmente de “Canarinho”.
SL: Por que você escolheu
o humor como ferramenta de trabalho? Como foi o início da sua carreira?
CA: Porque o humor é sublime. Não há nada melhor do que fazer o outro
sorrir. E no meu caso foi tudo muito natural, ou seja, nada programado. Por
volta dos anos 50, fazia shows noturnos para os turistas no Rio de Janeiro. Eu
já conhecia grandes personalidades da época como: Russo do Pandeiro, Bando da
Lua e Carmem Miranda. Mas quando cheguei a São Paulo conheci Manoel de Nóbrega.
Comecei a trabalhar com ele e nos apaixonamos (risos). Posso afirmar, com
absoluta certeza, que Manoel me tornou comediante, assim como ele ajudou
Golias, Carlos Alberto, entre outros grandes artistas. Com ele eu aprendi a
fazer teatro, cinema, televisão, ou seja, desenvolvi a arte de representar. Sem
dúvidas ele foi o mestre dos mestres.
SL: Neste mesmo contexto,
você acha que fazer humor é aptidão pessoal ou capacidade desenvolvida ao longo
dos anos?
CA: Ambos. Mas como não existe escola específica para comediantes, as
pessoas precisam ter um talento natural na área do humor para conseguirem
estabelecer um bom desempenho nos palcos. Precisa ser algo espontâneo, assim
como as atitudes de uma criança.
SL: Canarinho, além da
sua inesquecível participação na primeira versão do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” nos anos 70, na novela “Jerônimo - o Herói do Sertão” em 1972,
e em diversos filmes durante sua trajetória profissional, quais foram os seus
trabalhos mais marcantes?
CA: Creio que o programa “Praça da Alegria” com Manoel de Nóbrega foi um dos
mais marcantes na minha carreira, além da novela “Meu Pedacinho de Chão” da TV
Cultura, reprisada inúmeras vezes. Este trabalho me consagrou como melhor ator.
Jamais poderia esquecê-lo, assim como “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”, uma
verdadeira obra-prima de Monteiro Lobato. E recentemente, para a minha total
felicidade, o programa “A Praça é Nossa” traz recordações dos bons momentos que
eu vivenciei como um dos fundadores da Praça da Alegria.
SL: Você foi considerado
o primeiro negro da televisão brasileira?
CA: Sim. E não foi fácil vencer o preconceito em um país extremamente
racista. O problema é que a discriminação racial ainda está presente nos dias
atuais, porém, em menores proporções. Além disso, tenho orgulho em dizer que eu
consegui colocar a primeira negra nas propagandas da extinta TV Paulista,
durante a exibição do meu programa “Samba e Etc.”. Hoje eu vejo vários negros
na televisão brasileira e sinto-me lisonjeado. Tenho muita honra em ser negro!
SL: Como foi sua
experiência como apresentador no programa Clube
dos Artistas?
CA: Fantástica! Na verdade, eu participei de diversificados estilos de
programas. Em outras palavras, tive programas de variedades, infantis, musicais
e humorísticos. Conheci inúmeras emissoras de televisão consagradas como, por
exemplo, Cultura, Tupi, Excelsior e a TV Paulista, atual Globo. Mas foi durante
o programa “Clube dos Artistas” que eu ganhei vários prêmios como melhor
apresentador.
SL: É verdade que você já
foi colunista de esportes no Jornal Folha
da Manhã?
CA: Sim, é verdade. Eu também fui locutor esportivo e trabalhei como volante
de campo. Nesta época, Jorge de Souza se consagrava como um dos maiores
locutores do Brasil. Bons tempos... Lembro que a
gente entrava no campo e entrevistava os jogadores, enfim, era uma farra!
Sempre tinha muita piada e descontração (risos). Já cheguei a transmitir,
inclusive, algumas corridas de cavalos. Acredita? (risos)
SL: Como foi a
convivência com o saudoso Manoel de Nóbrega? A Praça da Alegria deixou muitas saudades?
CA: Puxa vida, você nem pode imaginar! Manoel de Nóbrega foi o ser mais
maravilhoso que eu conheci. Inteligente, honesto e trabalhador. Meu eterno professor!
SL: Respectivamente, Praça da Alegria, Praça Brasil e, atualmente, A Praça é Nossa. O que mudou na caracterização dos diferentes
personagens que você já interpretou ao longo da sua carreira?
CA: Somente os fatores tempo e receptividade. Tudo precisa ser bem adequado
ao momento presente. Isso porque o humorismo é a arte mais rápida do mundo.
Sendo assim, quando você faz uma graça, pode-se analisar a reação das pessoas e
obter resposta imediata do público.
SL: Como definir Carlos
Alberto de Nóbrega?
CA: Carlos Alberto de Nóbrega é filho de Manoel, o professor dos artistas
que hoje dá aula no céu (risos). Posso definir Carlos Alberto como um grande
amigo e parceiro.
SL: E Ronald Golias, o
que ele representava para você?
CA: Golias era o máximo! O cara mais cômico que eu conheci em toda a minha
vida! Ele era naturalmente engraçado. Se ele espirrasse, eu dava risada!
(risos) Acho que sorrir significa manter seu corpo em festa... E eu quero
viver em festa sempre.
SL: De um modo geral,
qual o segredo do sucesso para o programa no formato do pioneiro Praça da Alegria permanecer por tanto
tempo no ar?
CA: Seriedade e profissionalismo. É se informar dos fatos engraçados do
nosso cotidiano e transformá-los em humor, sempre mantendo o respeito aos
envolvidos e o carinho com o programa.
SL: Qual o fator mais
gratificante em trabalhar durante todos estes anos na emissora de Silvio
Santos?
CA: É exatamente a própria lealdade e a simplicidade que o Silvio nos
oferece. Ele é tão simples que muita gente censura esta simplicidade dele. Ele
não demonstra superioridade a ninguém, não tem necessidade de se exibir, faz
tudo com amor e é um chefe de família exemplar. É impressionante observar como
o Silvio Santos se diverte ao fazer todos os seus programas como se ele nem
fosse o empresário, parece que ele realmente depende daquele salário para
sobreviver. Por ele ser tão correto e honesto, acho que seria o melhor
Presidente da República que este país poderia ter.
SL: Canarinho, quem foi a
sua principal fonte de inspiração no início da sua carreira? E quem é o seu
ídolo atualmente?
CA: Bem, lembro-me que quando eu era criança costumava olhar para cima e
dizia para mim mesmo “Sorria pra Deus,
sorria pra natureza, sorria pra vida...”. Acho que a natureza existe e ela
age conforme seus pensamentos. Imaginava que ao crescer eu teria uma profissão
muito aplaudida, uma família maravilhosa, uma casa confortável e ganharia o
suficiente para viver. E tudo isso Deus me deu! Por isso, Deus sempre foi minha
fonte de inspiração, de força e perseverança. Ele me deu muito mais do que eu
esperava, do que eu pedia. Hoje, os meus colegas de trabalho são os meus ídolos
também, porque eu aprecio o trabalho e a garra de todos. Eu tenho muita
facilidade para rir, porque eu sou uma pessoa feliz acima de qualquer situação.
E acho que a pessoa feliz vive melhor, gosta de todo mundo e não promove a
violência.
SL: Na arte do humor,
como fazer o outro sorrir quando você está triste?
CA: O primeiro passo é não dar espaço para a tristeza. Para isso, basta
olhar os feitos, as conquistas realizadas. Eu penso sempre na seguinte frase “Em volta de mim tem que ter um jardim. Todo
mundo tem que estar bem, porque eu quero ser rodeado de pessoas felizes”. Ao
longo da minha história eu salvei várias vidas, literalmente, atuando como
médico, parteiro, dentista, enfim, socorri pessoas doentes, dei oportunidade
para muita gente na televisão, ensinei até analfabeto a trabalhar... É
importante agradecer a Deus pelas bênçãos recebidas diariamente. E ajudar ao
próximo sempre me faz sentir bem. Acredito que praticar o bem é um caminho para
a própria realização pessoal.
SL: Você acha que é mais
fácil ser humorista no Brasil nos dias de hoje? Há espaço para todos os novos
talentos na mídia?
CA: Em minha opinião, a competição sempre será a mesma. Sabe por quê? O bom
comediante se eterniza. Atitude é tudo, não importa o passar dos anos. Quando a
pessoa tem talento, ela precisa buscar seu espaço. E não encarar seus
concorrentes apenas como uma ameaça, pois ela pode e deve aprender algo com
eles. Por exemplo, podemos ver tantos bons jogadores de futebol por aí no
mercado esportivo atualmente, mas por enquanto só existe um Pelé em toda a
história do futebol, não é verdade? Da mesma forma, o humorista também precisa
almejar uma melhor performance a cada dia, não apenas para competir com a
concorrência, mas principalmente para ele mesmo se superar! Ninguém permanece
muito tempo sozinho no topo de algo, somente Jesus possui essa capacidade. Para
mim, é um prazer incentivar, elogiar, prestigiar, respeitar, torcer pelas
vitórias e reconhecer o valor dos meus colegas de trabalho. Sei que eu tenho
muita experiência a transmitir para eles.
SL: Geralmente, quem
costuma escrever os textos e criar as piadas em um programa humorístico? É o
próprio ator comediante ou o redator do programa?
CA: Depende de cada estilo de produção. Em alguns casos, são os próprios
atores comediantes, em outros, os redatores. Não há uma regra a ser seguida.
Essa é uma pergunta interessante, pois existem atores que simplesmente não
conseguem escrever, apenas representam. O segredo é descobrir uma verdade
polêmica, ou uma problemática do nosso cotidiano, e escrevê-la com graça. No
meu caso, sempre gostei de escrever e já elaborei textos até para outros
personagens.
SL: Canarinho, o que é “a
sua cara”?
CA: Ser profissional, acima de tudo, em todas as áreas da minha vida. Ser um
bom marido, pai de família, artista, ator, cantor, compositor, enfim, manter
sempre o profissionalismo e fazer tudo com o coração.
SL: E o que não é “a sua
cara”?
CA: Falsidade. É a pior coisa que existe! E eu confesso que nasci para ser
traído... Tenho bom coração e acredito em todo mundo. Inclusive, já fui traído
pela mesma pessoa por inúmeras vezes, sem guardar rancor. Não apenas na questão
afetiva ou amorosa, mas na questão profissional também. De uma maneira geral,
eu sempre ajudo as pessoas sem esperar por qualquer reconhecimento. Sei que não
tenho méritos para julgar ou perdoar ninguém, mas acho que cada um dá o que
tem. Ou seja, você só conseguirá oferecer lealdade se, de fato, for uma pessoa
leal consigo mesma. E quem não se ama, também não consegue amar ao próximo.
SL: Você está preparando
novos projetos para 2010?
CA: Sim, tenho planos até para 2027 quando completarei cem anos, se Deus
quiser! Vou dar uma grande festa! (risos). Brincadeiras à parte, pretendo
continuar com muita alegria no programa “A Praça é Nossa” em 2010, trazendo os
personagens já consagrados e oferecendo novidades sempre com muito carinho ao
público. Estou criando um personagem do típico brasileiro aposentado, ou
podemos ainda usar o termo “apoquentado” (risos), que na linguagem informal significa pessoa
aflita, torturada pela burocracia da sociedade... Ah, mas isso ainda é
surpresa, não posso contar! Posteriormente, gostaria de elaborar um livro, uma
espécie de biografia para contar um pouquinho da minha trajetória profissional.
Veja bem, eu tenho quase setenta anos de carreira artística... Recentemente até
apareceu um cineasta que planejava um curta-metragem sobre a minha vida. Mas
era muita coisa para contar, não dava para reduzir toda a história... (risos)
SL: E para saber mais a
respeito de seus trabalhos?
CA: Fácil! Meu site é www.artistacanarinho.com.br. Vocês encontram curiosidades e algumas
fotos dos meus trabalhos anteriores, personagens atuais, além de recordações
minhas ao lado de pessoas inesquecíveis.
SL: Canarinho, que os
mais belos ventos possam continuar te conduzindo aos caminhos da felicidade e
do sucesso! Você é um verdadeiro exemplo de história de vida a todos! Muito
obrigada por nos conceder essa entrevista, considerada como uma das mais
importantes já realizadas pela nossa equipe de redação.
CA: Muito obrigado por suas palavras. Diante de tantas dificuldades atuais,
nós comediantes tentamos levar um pouquinho de alegria à população. Vamos
torcer para que nossas crianças encontrem um mundo melhor do que o nosso, em
todos os sentidos, vencendo desafios e aprendendo a descobrir o verdadeiro sentido
da vida. Uma sociedade mais justa, mais humana, mais unida e menos
preconceituosa. Desejo inúmeras conquistas a todos para o ano que se inicia.
Obrigado.
Uma figura espetacular este Canarinho.
ResponderExcluirObrigado Susana pela homenagem dada a ele.
MARCOU UMA GERACAO>>>D.J.
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